Livros remetem empatia

Eu acho que nasci livro
Com capa e sobrecapa
Com mais pontuação que palavras
Numerado como uma estrada

Papel, couro, tecido e cola
Meu sangue é negro, cheira à engrenagem
Sensível a luz, umidade e temperatura
Minha carne é quente de brancura

Sou levado, mostrado, guardado,
esquecido, roubado, devolvido e assinado
Mais do que tudo sou julgado
Pela roupa e pelo cheiro emanado

Sou vulnerável aos anos e às críticas
Perco as beiradas e as vísceras
Não tenho voz, mas vou dizendo
Sou máquina do tempo

As marcas em minhas folhas escancaram (im)permanência
O amarelo em minha pele é sinal do mal desvanecente
Quanto mais aberto,maltratado ou bem tratado, me torno imundo
Vou criando rugas, sulcos na capa dura destacam meu olhar profundo

Eu, enquanto livro
Me livro de qualquer moral
Apesar de um quê intelectual
Já tenho muitos parentes por aí a bostejar
Meu melhor desígnio é (me) desemburrar

Eu acho que no céu existem pássaros-livros
Voando em bando sem autoria
E suas penas são palavras
As que caem ao solo, formam poesia

Espero muito que no céu as pessoas sejam livros
Romances livres e sem sentido
Ser livro é transcender (à carne humana)
É não sair ileso, é mudar os tempos

Sem tempo livre não há poemas
Nem se lê
Nem se escrevem
Sem tempo livre não há livro
E não basta ser quente para estar vivo
Muito menos pensar-se livre
.
E essencial ser livro

It’s all fuck and kill

It’s all fuck and kill
That’s life poetry
It’s all fuck and kill
In every step and every will

It’s all fuck and kill
On TV, on the news
In your house, in your school
There is no more to it
It’s all fuck and kill

It’s all fuck and kill
It’s gizz and pill
It’s all Chuck and Bill

It’s all fuck and kill
There is nothing in between
There is no such thing as badly ill
It’s all fuck and kill
And I know that you will
Not me, nor Bill

It’s all fuck and kill
There is nothing else to it
Fuck and kill
Fuckers and killers
Lovers and sinners
Writers and dry-cleaners

It’s all fuck and kill
Bangs and fangs
Panties and guns
Bananas and clementines
Should I eat a banana? Or fuck it?

It’s all fuck and kill
We fuck each other
And kill our feelings
We fuck each other
And kill our language
We kill each other
And fuck our siblings
It’s all fuck and kill

It’s all fuck and kill
Is it better to be fucked or be killed?
To kill with love
And fuck with anger
To fuck for love
And kill for anger

It’s all fuck and kill
There is no free-will
It’s all fuck and kill
The absolute opposite of free-will

It’s all fuck and kill
I was fucking you whilst thinking about killing myself
I was fucking her thinking about you
You were killing me whilst fucking him

It’s all fuck and kill
I’m not the one who created sins
It’s all fuck and kill
Fuck or be killed; kill or be fucked

No, I will not kill
No, I won’t write about fucking or killing you
I can’t kill you, not even the memory of you

It’s all fuck and kill
Fucking repetition, I hate it
Fucking is repetition
It’s all fuck and kill
I hate it

no dia em que morri

No dia em que eu morri
Não estava chovendo
Eu não acordei cedo
Não tinha luz na cidade

No dia em que eu morri
Eu não botei açúcar no café
Eu não tomei banho antes de sair
Mas não deixei de escovar os dentes

No dia em que eu morri
A primeira coisa que eu beijei foi uma cerveja
No dia em que eu morri
Não fumei meu último cigarro

No dia em que eu morri
Eu não respondi nenhuma mensagem
Eu li as notícias da bolsa
Eu li vinte páginas dos diários de emilio renzi

No dia em que eu morri
Eu não caguei
Mas mijei três vezes
No dia em que eu morri
Eu conheci um cachorro
Se chamava Filomeno
Isso me deixou alegre

No dia em que eu morri
Não anoiteceu
Os elevadores não subiram em nenhum prédio
E ninguém mais morreu

No dia em que eu morri
Ela me ligou quatro vezes
Eu não escutei sua voz
Eu não vi suas fotos

No dia em que eu morri
Eu não chorei
No dia em que eu morri
Tinham sessenta e sete reais na minha carteira
E três ovos na geladeira

No dia em que eu morri
Eu atravessei a rua da voluntários com a real grandeza olhando pra baixo
Você passou por mim e eu senti seu perfume
No dia em que eu morri
Eu não olhei pra trás nenhuma vez

Eterno inteiro

Eterno é tê-lo inteiro
Entre o estático e o vento
Em tempo, és tenro esteio
Estirado em seio esguio
Entr’olho és tido estético

Eterno em tudo és tenro
És estilo, porém tardio
És tático estilo
És tiro, espevito estoiro
E o encontro de quem não veio
Estouro estoico espírito

Eterno é tê-lo inteiro
Estoico, és touro espírito
Estórias em tiras eu tento
Estradas estouram em vento

Espólios emblemas son efêmeros
Eu treino, eu tento, entretenho
És teto enquanto cheiro
Em tiras encharcadas espirro

Estórias estouram a história
Entremeios são vidas alheias
Em contos e encontros
Em versos e prosas rimadas
Entre e fique agoira
Entre mim e outrora

Eterno é tê-lo inteiro
Em ponto de embolar já cheio
Estique as meias dos vadios
E tente entender os vazios

Eterno é tê-lo cheio
Ereto esquisito eu quero
Egoísmo fulminante ao nosso
És meu, explique-se sem freio
És meu, em trinta anos feios
Esmero transgride o feito
Em teia eu o tenho
El toro tolo de mis devaneios

How to be a fake poet

Como ser um falso poeta – tradução livre das anotações de Charles Bukowski

Tenha ideias “sensacionais” em momentos que você não está em frente ao computador, como no banho, no metrô, na academia ou ao acordar de madrugada para mijar. Anote rapidamente no celular ou em um bloquinho. Considere sua ideia tão original como adolescentes consideram suas emoções mais dignas que a dos adultos (como se fossem os donos exclusivos da paixão, do sentimento de injustiça no mundo, da raiva e da malandragem). Sinta potencial na sua ideia e ache que isso possa virar um poema lindo para ser postado no twitter ou instagram. Ache até que possa virar um livro ou até um roteiro. Chegue em casa e não faça absolutamente nada sobre isso. Saia para um bar ou entre no tinder e conte para algum crush sobre a sua ideia e fale com paixão sobre o potencial de escrever. Tome um copo de whisky e fume vários cigarros pra se sentir decadente e romântico. Pare de beber antes de ficar tonto e vomitar. Poetas de verdade não tem medo de apagar. Vá dormir orgulhoso e esqueça tudo no dia seguinte ou releia o que você escreveu para perceber que não era bosta nenhuma. Assista uma maratona de séries no netflix e leia trechos de livros da sua estante; e veja ideias parecidas com a sua em vários filmes que falam sobre amor, vida e etc. Entre no instagram e veja frases aleatórias de filósofos que usam as mesmas palavras e ideias que você. Veja frases de efeito vindo de pessoas que você não respeita também. Sinta-se orgulhoso por saber usar essas palavras e ter a mesma opinião que pessoas que você respeita e sinta-se superior às outras pessoas que citam versos sem sentir ou entender o significado, inclusive aos crushes que você achou que impressionou.

Vá para cama depois da meia-noite sem saber que inconscientemente as ideias dos livros e poemas que você leu e filmes que você viu (às vezes de autores que morreram há séculos) estão escondidas ali na sua máquina de ideias mágicas e você não passa de uma farsa sem sentimentos, que você não rima melhor que um cantor de sertanejo e que ninguém tem moral para falar de amor num mundo em plena transformação com humanos que não mudam há 10 mil anos, muito menos sobre a vida menos ainda sobre a morte. Sinta-se um merda e tenha uma leve depressão na esperança de que algum crush virá te consolar.

Aumente sua autoestima com base no que você veste e posta no instagram e esqueça todas as ideias que você sonhou ontem à noite ou naquela vez que você fumou um e achou que tinha descoberto a lâmpada ou decifrado o propósito da vida. Use boina, cachecol e meias coloridas. Viaje para a Europa e poste fotos de exposições contemporâneas com uma crítica à transitoriedade das relações. Leia Bauman e converse sobre isso com um crush de 10 anos a menos que você.

Faça um blog e divida a sua opinião sobre poesia e amor com a internet. Compartilhe no facebook e ganhe likes dos seus pais e das suas tias. Tome um banho quente e sente-se no chão para tentar chorar e se sentir intenso. Passe hidratante após o banho. Passe perfume e use cotonete. Poetas de verdade não se importam com higiene. Tente escutar uma sonata de bethoven e lembre-se de uma paixão que você deixou passar por ser muito egocêntrico. Mude para The Lumineers ou Los Hermanos e tente chorar novamente. Acabe chorando vendo uma comédia romântica adolescente produzida pelo netflix.

Caso as ideias não saiam da sua cabeça tente escrever no computador sentado num café só para constatar a humilde conclusão de que escrever sem paixão é o mesmo que transar sem tesão. Arranje um emprego rapidamente para não passar fome. A pobreza é digna dos poetas de verdade.

Quem vai comer as menininhas?
Não são os velhos, mesmo famosos.
Não são os novos, ainda fudidos.
Talvez os poetas, medíocres
burgueses porém eruditos.

Me conte uma história

Conta-me uma história em 8 cigarros
Ao final … deixe-me adivinhar
Preenche-te com causos reais de amores acontecidos
Porém me indiferencie de sua realidade
Eu não sou um trabalho

Conte-me uma história que haja fumaça
Eu quero ouvir desgraça
Onde estão as cinzas do amor que lhe ardeu?
Onde estão as cinzas da paixão que te fudeu?

Me conte uma história de tempos não vividos
Dá-me inveja
Causa-me vontade de viajar no tempo
Atrás de guerras e revoluções,
algumas por amor,
todas sempre com amor

Me conta uma história de tempos vindouros
Me faça sonhar em deslumbre
Me deixa criar em desbunde
para que eu me deleite
em esperanças com tudo que não-há
Banque minhas loucuras
e mate meu personagem no final,
após meu gozo, obviamente.
Após meu gozo e meu último cigarro.

Não me acordem

O meu maior castigo por viver a vida tão vivida
será um maior sofrimento ao morrer;
pois sou apegado.

Ah! Como sou apegado.
Culpado por sonhar voar.
Culpa do vento quente do Norte
que pela primeira vez
fez as velas inflarem.
Culpa das palavras saborosas
que traziam lambidas à boca
mesmo após o jantar.
que não deixavam luz alguma se apagar –
o cerrar dos olhos sempre foram passagem
para um mundo ainda mais
iluminado,
uma caixa de lápis escancarada.

A minha culpa vai perder peso diante da sua inveja.
As duas são suas.
Eu não levo nada nos sonhos.
Nem trago nada deles.
Somente tendo nada posso sonhar.

E
Não me acordem!
Morrer na realidade é a morte morrida.
Somos desfeitos pela verdade.
Engolidos pela caveira preta no escuro-nada do silêncio-tudo.

Não me acordem!
Pois a vida é um sonho e;
é o acordar que nos mata.

Não me acordem!
Me beijem, mas;
não me acordem!

Não me acordem!
E as emanações deliciosas e delirantes
do vinho não irão me abandonar.

Não me acordem!
E pra sempre vou sentir o perfume de seda
da travessa vazia de casas azuis
que levam ao castelo de Arraiolos.

Eu sou ninguém

Eu sou ninguém
Como você me vê
Como você me enxerga
Este sou eu
Esta sou eu

Por quê você me vê?
Por quê você quer me ver?

Eu sou ninguém
Porém não sou nada
Não sou o nada
Alguma coisa sou
Neste papel
No meu papel de ninguém

Sou papel de ninguém
Porque nada me contém
O nada não se apoderou de mim

Portanto o que sou não é de alguém
Nem alguém é o que sou

Por quê você me vê?
Se eu sou ninguém

Porque como se é, se vê
Não sou ninguém
Não sou nada
Não estou dentro
Mas além

Silence

The letter on the page is silent
The words on the wall are silent
The thoughts in my head are silent
The pointing gun is silent
The disease is silent
Prejudice is silent
Domestic violence is (as) silent
(as) the falling tree in the woods (is silent)
Complacency is silent
The lightning flash is silent (for a second or two)
The heart`s skip of a beat is silent

So why today`s poetry need be screamed?
Why it is assumed that emotions are loud?
Doesn`t my silent emotion deserve be poetic?

Screams and emotions come from the guts
And their only way out is out throat

Why poetry need be loud?
I’ll tell you why!

Our mouths are deaf to the oppressed ones
Our ears are blind to the depressed ones
Our eyes are mute to the unloved

The “nevermind” is silent
The “whatever” is silent
The “it wasn’t me” is silent
And “what I wanted to say” is silent

An obvious dialogue

– You and me
– You and you
– You and him
– You and her
– You tell her
– You tell me
– You love her
– You tell him
– You love him
– You meet me
– You find me
– You have me
– You have her
– You hold her
– You play him
– You kill him
– You know me
– You get me
– You fuck her
– You fuck you
– You or him
– You but me
– You let her
– You leave him
– You and me

(punctuation unecessary)